sábado, 17 de julho de 2010

A felicidade na submissão

Sempre é tão saboroso ver nosso futebol medíocre ser esculhambado. Todos os alienados e suas carrancas achando que perderam alguma coisa além de tempo. Para aqueles que ainda acreditam e vivem este conto de fadas, lamento-lhes informar, mas tudo o que é transmitido via TV é manipulado pelo dinheiro. Então, você gasta seu tempo para dar audiência e não ganhar nada com isso, mas achando que o seu país irá melhorar se a seleção de futebol ganhar um mísero jogo ou a copa neste caso. Alguns dizem que o futebol une o povo, argumento do qual eu não posso discordar, porém ficam as seguintes questões:
• Une em função de quê?
• Une para melhorar o quê?
• Para chegar onde?
“Muitas pessoas são felizes na submissão”, afirmei outro dia em um diálogo relacionado ao capitalismo, o qual discutia com um colega marxista de faculdade. Poucas coisas mudaram desde que o homem começou a pensar, ainda oscilamos entre o sentimentalismo e a sobrevivência, e provavelmente nunca sairemos destas condições. A ação direta, revolucionária e modificadora é privilégio de poucas cabeças pensantes como prova a história. Vivemos em um mundo capitalista gerador de ilusões consumistas. A maioria das pessoas se veste com seu individualismo para camuflarem-se em seu meio social, adéquam seus valores aos de seu meio, nunca os questionam, aceitam sem ao menos saber o por quê. Por nunca conseguirem sair das condições impostas externamente, acabam por identificarem-se com as poucas coisas das quais elas compreendem, as mesmas que lhes foram impostas durante a vida toda, criam heróis simbólicos, pontos de referência nos quais possam se sentir importantes e alimentar seus egos, expor mesmo de forma fictícia alguma superioridade. A mudança real não é possível, e mais impossível ainda é encontrar algum resquício de evolução quando tal indivíduo encontra-se nesta situação. Todos os problemas externos são alocados separadamente de sua pseudo-realidade, ele não pensa, não analisa e nem faz. Ele apenas é aquilo que querem que ele seja, então não é. No caso do brasileiro em particular, o mesmo apega-se entre o futebol, TV e religião. É bem mais fácil encontrar a felicidade ignorando todos os problemas em nossa volta do que resolvermos um a um. É muito mais fácil acreditar que a fome irá acabar no mundo se rezarmos do que tentar eliminá-la através da pressão popular sobre nossos políticos para que melhorem as condições de vida de nosso povo. A maioria segue sempre o caminho mais fácil. Quando não se tem informação alguma sobre leis e não se raciocina, procura-se ser feliz de outras maneiras, passivamente e de forma submissa. Então como o brasileiro é feliz diante de toda a desgraça em que o Brasil se encontra? Toda a fome, prostituição infantil, roubalheira política, falta de atendimento médico, falta de segurança entre outros “probleminhas” menos importantes que a grandiosa copa do mundo. Como o brasileiro consegue ser feliz? A resposta é fácil. Fechamos nossos olhos e nos fingimos de cegos. Paramos de enxergar o mendigo, o doente e as crianças nos semáforos. Tapamos nossos ouvidos para não ouvir o choro de fome dos bebês no norte do país, fingimos não saber o que está acontecendo em nossa política. E assim então ligamos nossa TV e direcionamos nossas vidas a 90 minutos de um jogo de futebol, o qual nos dá um diploma de idiotas. Sim, idiotas. Pois só um idiota se esquece de suas necessidades e coloca como prioridade algo que não vai melhorar sua vida em nada, a vida das pessoas que ama em nada, a identidade de seu país em nada, algo que ele nem faz em função própria. Enquanto países como a Alemanha, EUA, Japão, França entre outros orgulham-se das mentes brilhantes que surgem todos os anos em suas tradicionais universidades, nós aqui no Brasil não sabemos o nome nem de nossos grandes escritores, físicos e doutores que são tão respeitados lá fora. Ao invés de respeitarmos a inteligência respeitamos a imposição, criamos nossa imagem heróica em um jogador de futebol que nem sabe falar direito. Termino esta com a famosa frase de Confúcio, do qual poucos sabem quem foi.
“Se um Estado for governado pelos princípios da razão a pobreza e a miséria serão objetos de vergonha; se um Estado não for governado pelos princípios da razão a riqueza e as honrarias serão objetos de vergonha.”
Caso não entenda o que a frase tentou passar, troque 90 minutos de futebol por 90 minutos de leitura e quem sabe um dia entenderá.

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